Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Quase Um Blog

isto não é um blog

Quase Um Blog

isto não é um blog

O batom.

M.R., 21.10.20

Ontem à noite lembrei-me de uma camisola giríssima que já não usava há um par de meses, e montei mentalmente o outfit.

Hoje de manhã, com a roupa vestida, os acessórios escolhidos e o cabelo penteado como queria, estava bastante satisfeita. Mas faltava alguma coisa - o meu batom vermelho.

Nos últimos tempos, por motivos óbvios, ou ando de cara lavada ou, quando decido maquilhar-me, fico-me pelo eyeliner. Ninguém vai ver-me os lábios, vou sujar o interior da máscara e ainda vou ficar toda borrada ao final do dia - assim, o batom, é algo desnecessário.

Mas hoje, a olhar para o meu reflexo, senti-me incompleta. Ia à Loja do Cidadão, o que queria dizer que ia sair, sim, mas ninguém me ia ver sem máscara - apenas os meus pais, cá em casa. E eu, claro. Não valia a pena, pois não? Era um desperdício de maquilhagem, certo?

Momentos depois, pintei os lábios. Chamem-me superficial, mas fiquei imediatamente mais feliz. Senti-me mais gira. Senti que estava a ver no espelho a pessoa que quero mostrar ao mundo. Senti-me uma mulher poderosa, pronta para enfrentar qualquer desafio que o mundo me atirasse.

Chanel Beauty House | Pretty Little Shoppers

 

De certeza que já ouviram pessoas dizer que não se maquilham para os outros, mas para si próprias. É algo que sempre se soube. Mas acho que esta pandemia só o veio confirmar.

Enquanto regressava da Loja do Cidadão, a conduzir com o meu pai no lugar do passageiro a dar-me indicações (estive demasiado tempo parada e só agora é que começo a perder o receio de conduzir sem companhia), lembrei-me do meu exame de condução. Ou exames, para ser mais concreta.

Antes do meu primeiro exame, a minha mãe perguntou-me o que ia vestir. Eu não tinha pensado muito sobre o assunto, e disse que ia vestir "qualquer coisa". Ela sugeriu-me que não usasse maquilhagem. Tinha 19 anos na altura, e cara de criança (que ainda tenho), e ela disse que se calhar se o examinador me visse de cara lavada e com "ar inocente" talvez tivesse pena de mim e fosse mais leniente. Eu acho que disse isto meio a brincar, meio a sério. Até hoje, não sei bem - mas sei que na altura, achei que havia alguma razão nesta lógica. E aceitei a sugestão.

É de fazer ver que eu não era (*cof cof* nem sou *cof cof*) muito boa condutora, e estava extremamente nervosa, e que sei que foi por isso que chumbei no exame. Fiz asneira e mereci mesmo chumbar (com ou sem maquilhagem).

Da segunda vez, nem vi nem falei com a minha mãe antes do exame. Vesti uma coisa gira, pintei as asas negras nos olhos e os lábios de bordeaux (era a minha cor predileta, na altura) e saí. E lembro-me perfeitamente de estar a falar com o meu namorado (que na altura era só o rapaz com quem estava a "falar") e lhe contar o que tinha acontecido no exame anterior e dizer que daquela vez me pintei porque precisava da minha "pintura de guerra"; que se chumbasse, o faria parecendo a mulher que era, e não uma criança indefesa. Continuava nervosa, mas não na mesma medida. E desta vez, sabendo o que tinha corrido mal à primeira, tendo tido aulas extra, já acreditava que ia passar. E lá está: não tive um exame perfeito, mas saí de lá encartada.

Vá, convenhamos, não foi a maquilhagem que me fez passar no exame. Lógico que não. Sabia-o na altura, e sei-o agora. Mas hoje, analisando a história, achei piada ao facto de, há mais de quatro anos, ter sentido que tinha de ser fiel a mim mesma e ao meu estilo para que as coisas me corressem bem - e de, hoje em dia, sentir exatamente o mesmo.

Talvez todo este devaneio vos deixe a pensar que sou superficial. Eh pá, se calhar sou. O batom faz-me sentir mais confiante. Sim, vejo como possa soar frívola.

Mas também acho que poder carregar um pouco de confiança num tubo de plástico tem o seu quê de mágico.

4 comentários

Comentar post